Por Albert Geiger em 10/07/2025
A indústria perde conhecimento todos os dias. Turnover, aposentadorias e mudanças de função silenciosamente esvaziam o saber prático dos postos de trabalho. Este artigo mostra como transformar o conhecimento tácito dos operadores experientes em microaulas digitais, garantindo a transferência eficaz do saber e fortalecendo a produtividade e a segurança da operação.
Mas afinal, o que é conhecimento tácito?
De forma resumida, o conhecimento tácito é aquele que vive na experiência prática do colaborador. É o “jeito certo” de ajustar uma máquina, o cuidado não documentado durante o setup, o macete que evita o erro — mas que não está nos manuais nem nos procedimentos. (Para entender melhor esses conceitos, veja este vídeo.)
Conforme Nonaka e Takeuchi (1997)1, referências clássicas na Gestão do Conhecimento, o conhecimento tácito é difícil de ser externalizado, tanto em termos técnicos (codificação), quanto cognitivos (compreensão). Para os autores, esse tipo de conhecimento pode ser convertido por meio da socialização, onde experiências são compartilhadas entre membros da comunidade (empresa), e pela externalização, que é a conversão do conhecimento tácito em conceitos explícitos, por meio da formalização em modelos. Essa é a verdadeira chave para a criação do conhecimento organizacional. (Para conhecer mais acesse o vídeo)
O risco da perda silenciosa do conhecimento
Toda empresa com história conta com colaboradores experientes que possuem conhecimentos informais — não escritos — sobre os processos operacionais. Esse saber, como vimos, é o conhecimento tácito. Pode incluir um ajuste especial em uma ferramenta ou uma adaptação feita para lidar com uma máquina já desgastada pelo tempo.
Quando esse colaborador se desliga da empresa, se aposenta ou muda de função, seus conhecimentos podem desaparecer, gerando:
- Aumento do retrabalho;
- Paradas, quebras de máquinas e ferramentas;
- Redução da qualidade;
- Riscos operacionais e de segurança mais elevados.
A cada perda, o time de qualidade ou engenharia é acionado para investigar o problema. Muitas vezes, reinventa-se o que já estava funcionando, comprometendo não só a produtividade, mas também a cultura de excelência operacional.
Como capturar e digitalizar o saber prático do conhecimento tácito
Capturar e formalizar o conhecimento tácito é um esforço antigo na indústria. Ele remonta a Charles Allen em 1917 e se fortaleceu com o TWI (Training Within Industry), durante os anos 1940, no contexto da Segunda Guerra Mundial. A partir da década de 1970, com a introdução dos conceitos de Lean Manufacturing e Total Productive Maintenance (TPM), esse esforço ganhou escala, envolvendo setores de suporte na formalização e codificação de práticas.
Uma das formas mais notáveis de formalização é a criação das Lições de Um Ponto (LUP), ou Lições Ponto a Ponto (LPP). Originadas no TPM, essas lições são produzidas pelos próprios operadores e técnicos, que registram:
- Conhecimentos básicos sobre seus processos;
- Soluções para problemas operacionais;
- Pequenas melhorias aplicadas no dia a dia.
Utilizando linguagem simples e visual, com desenhos, fotos ou ilustrações, as LUPs são feitas para serem lidas e entendidas em menos de 5 minutos, tornando o conhecimento tácito cada vez mais acessível.
Com o avanço da tecnologia digital e o uso de dispositivos móveis, esse formato evoluiu para microaulas em vídeo, checklists interativos e módulos no estilo microlearning — exatamente como funciona o Desenvolve Conhecimento Aplicado. O uso de tecnologia da informação traz dinamismo, escalabilidade e alcance muito maiores ao processo.
Como fazer: passo a passo para capturar o conhecimento tácito
Abaixo está um processo prático e eficaz, dividido em 5 passos, para transformar conhecimento tácito em microaulas digitais e fortalecer o aprendizado direto no local de trabalho:
1. Identifique operadores-chave e práticas críticas
Selecione os profissionais mais experientes, que dominam tarefas específicas e são referência dentro da equipe. A participação ativa desses colaboradores é essencial — não apenas para registrar o saber prático, mas também como exemplo de valorização do conhecimento na organização.
Com o apoio deles:
- Identifique rotinas nas quais o erro tem alto custo ou oferece risco à segurança.
- Mapeie os pontos críticos do processo onde o conhecimento tácito é decisivo.
- Priorize o registro de conteúdos que geram impacto direto nos resultados operacionais.
2. Capacite os operadores para eles possam criar microcursos digitais
Ofereça capacitação para que os próprios colaboradores possam produzir seus conteúdos, de preferência utilizando ferramentas digitais simples e dispositivos móveis.
Inclua nesse processo:
- A seleção e orientação de lideranças operacionais para atuarem como revisores e aprovadores dos materiais.
- A validação dos conteúdos com pequenos grupos de operadores, garantindo que a linguagem está clara, objetiva e compreensível para quem irá utilizar.
3. Produza o conteúdo em microformato
Siga os princípios da microaprendizagem:
- Foque em uma única tarefa, ponto crítico ou erro a evitar.
- Limite cada aula a 2 a 5 minutos.
- Crie conteúdos multimidia. combine textos curtos, imagens e vídeos — de preferência com o próprio colaborador explicando o tema com suas palavras.
Reforce sempre: o conteúdo não precisa ser perfeito, mas precisa ser verdadeiro. A autenticidade e aplicabilidade são mais valiosas que a edição profissional.
Inclua, ao final, perguntas rápidas ou checklists para reforço da aprendizagem. E não se esqueça de formalizar a aprovação e reconhecer publicamente os colaboradores que contribuírem com os conteúdos.
4. Transforme a prática em um hábito
Mais do que uma iniciativa pontual, a captura de conhecimento tácito deve se tornar parte da cultura da empresa. Para isso:
- Crie um ambiente que valorize a participação e a colaboração contínua.
- Reconheça publicamente e premie as melhores contribuições.
- Estimule lideranças a darem o exemplo e apoiarem ativamente o processo.
O hábito de compartilhar o saber fortalece o senso de pertencimento e acelera o aprendizado coletivo.
5. Disponibilize no local certo, na hora certa
Utilize plataformas como o Desenvolve Conhecimento Aplicado para entregar o conteúdo diretamente no celular do colaborador — organizado por trilhas, máquinas, setores ou atividades específicas.
Garanta que:
- Os conteúdos estejam acessíveis no ponto de trabalho, inclusive em ambientes com baixa conectividade.
- O operador possa consultar a informação no exato momento em que precisa, sem depender de treinamentos centralizados ou presenciais.
Para capturar o conhecimento tácito, envolva todas as equipes internas
O trabalhador precisa ser estimulado a compartilhar seu conhecimento. Isso requer:
- Um ambiente de respeito à experiência anterior;
- Estímulo à participação e visibilidade para quem compartilha saberes;
- Redução do medo de exposição ou julgamento;
- Combate à ideia de que “conhecimento é poder” e, portanto, deve ser guardado.
Muitos colaboradores resistem por medo de que, ao compartilhar seu saber, percam relevância ou importância. É fundamental que a empresa valorize e reconheça quem compartilha — promovendo uma cultura em que o conhecimento coletivo vale mais que o individual.
O papel do Desenvolve
A plataforma Desenvolve Conhecimento Aplicado foi criada exatamente para isso: digitalizar e distribuir o conhecimento prático de forma rápida, simples e eficaz. Com ela, você pode:
- Criar microaulas diretamente do celular;
- Organizar trilhas de conhecimento por processo, máquina ou risco;
- Avaliar o aprendizado na prática;
- Garantir que o conhecimento esteja onde e quando o colaborador precisar.
Conclusão
O conhecimento que está na cabeça dos seus operadores é um patrimônio valioso — mas também volátil. Transformá-lo em microaulas digitais é proteger a inteligência da sua operação. E mais do que isso: é democratizar o saber e garantir que a excelência não dependa de poucos, mas seja acessível a todos.
A digitalização desse processo facilita o acesso ao conhecimento, fortalece o aprendizado prático e mantém a excelência operacional viva. Mas, para que isso funcione, é essencial envolver os operadores, reconhecer sua importância e dar visibilidade a quem compartilha.
- NONAKA, I; TAKEUCHI, H. Criação de Conhecimento na Empresa. Rio de Janeiro: Campus,
1997. ↩︎