Atitude no CHA: o fator invisível que impacta segurança e produtividade

Influência da atitude no CHA

Por que duas pessoas, com o mesmo treinamento e desempenhando a mesma função, apresentam resultados completamente diferentes?

Por que alguns colaboradores seguem rigorosamente os procedimentos de segurança enquanto outros assumem riscos desnecessários? Por que determinados profissionais se destacam pela iniciativa, colaboração e capacidade de resolver problemas, enquanto outros permanecem presos à execução mínima das tarefas?

A resposta, em grande parte dos casos, está em um elemento invisível das competências profissionais: a atitude.

Segundo McClelland (1973), o desempenho superior não pode ser explicado apenas pelo conhecimento técnico ou pela inteligência, mas por um conjunto de competências comportamentais que influenciam diretamente a forma como as pessoas agem e entregam resultados.

As organizações investem milhões em treinamento técnico, sistemas de gestão e tecnologias de automação. Entretanto, frequentemente descobrem que a produtividade, a qualidade e a segurança continuam abaixo do esperado. O problema não está necessariamente na falta de conhecimento ou de habilidades técnicas. Muitas vezes, ele está na incapacidade de transformar esses conhecimentos em comportamentos consistentes.

É nesse contexto que a dimensão Atitude, presente no modelo CHA (Conhecimento, Habilidade e Atitude), assume um papel estratégico.

Mais do que simplesmente “querer fazer”, a atitude representa a disposição de aplicar conhecimentos e habilidades para gerar resultados, resolver problemas, trabalhar em equipe e agir de forma segura e responsável.

Em um ambiente industrial cada vez mais complexo e dinâmico, compreender o papel da atitude tornou-se fundamental para aumentar a produtividade e construir uma cultura sólida de segurança.


O modelo CHA e o desenvolvimento das competências

O modelo CHA é amplamente utilizado na gestão de pessoas para explicar o desenvolvimento das competências profissionais.

Ele é composto por três dimensões:

  • Conhecimento (Saber): informações, conceitos, normas e procedimentos.
  • Habilidade (Saber Fazer): capacidade de aplicar o conhecimento na prática.
  • Atitude (Querer Fazer): disposição para agir e transformar capacidade em resultados.

Boyatzis (1982) define competência como uma característica subjacente de uma pessoa que resulta em desempenho efetivo ou superior no trabalho. Posteriormente, Spencer e Spencer (1993) demonstraram que conhecimentos e habilidades representam apenas a parte visível das competências, enquanto motivações, valores e atitudes constituem fatores mais profundos e determinantes do desempenho.

Durante muito tempo, as organizações concentraram seus esforços nas duas primeiras dimensões. Investiram em cursos, treinamentos e capacitações técnicas acreditando que o conhecimento, por si só, seria suficiente para melhorar o desempenho.

A prática mostrou o contrário. Muitos profissionais sabem exatamente o que deve ser feito, possuem habilidade para executar suas atividades, mas não apresentam o comportamento necessário para aplicar esse conhecimento de forma consistente.

É nesse ponto que surge o chamado fator invisível das competências.


Por que a atitude é o fator invisível?

O Modelo do Iceberg das Competências, proposto por Spencer e Spencer (1993), sugere que conhecimentos e habilidades são relativamente fáceis de identificar e desenvolver, enquanto atitudes, traços e motivações são menos visíveis e mais difíceis de modificar, embora sejam os principais responsáveis pelo desempenho superior.

Conhecimento e habilidades podem ser observados por meio de:

  • certificados;
  • cursos realizados;
  • treinamentos concluídos;
  • experiência profissional;
  • domínio técnico.

A atitude, porém, está relacionada a fatores menos tangíveis:

  • responsabilidade;
  • comprometimento;
  • disciplina;
  • iniciativa;
  • colaboração;
  • autocontrole;
  • capacidade de adaptação;
  • senso de dono.

Esses comportamentos não aparecem em um currículo e nem sempre são percebidos em avaliações tradicionais de desempenho.

No entanto, são justamente eles que determinam como o conhecimento será utilizado no dia a dia.


A relação entre atitude no CHA e segurança no trabalho

Grande parte dos acidentes industriais não ocorre pela ausência de normas ou pela falta de treinamento.

Em muitas situações:

  • o colaborador conhece o procedimento;
  • sabe utilizar o equipamento corretamente;
  • entende os riscos envolvidos.

Mesmo assim, o acidente acontece.

Por quê?

Porque existe uma falha na dimensão atitudinal.

Estudos em Segurança Comportamental demonstram que a maioria dos acidentes está associada a comportamentos inseguros e não exclusivamente à falta de conhecimento técnico (Geller, 2001). Da mesma forma, Reason (1997) argumenta que os acidentes organizacionais resultam da combinação entre falhas sistêmicas e fatores humanos.

Alguns comportamentos que aumentam significativamente o risco operacional incluem:

  • excesso de confiança;
  • negligência;
  • pressa;
  • resistência ao cumprimento de padrões;
  • baixa percepção de risco;
  • falta de disciplina.

Por outro lado, atitudes positivas fortalecem a segurança:

  • respeito aos procedimentos;
  • comunicação de desvios;
  • atenção aos detalhes;
  • responsabilidade coletiva;
  • disposição para interromper atividades inseguras.

A segurança, portanto, depende da interação entre conhecimento técnico, comportamento humano e condições organizacionais.


Como a atitude no CHA impacta a produtividade

Diversos estudos em gestão de pessoas demonstram que comportamentos como iniciativa, colaboração, comprometimento e proatividade possuem forte correlação com o desempenho organizacional.

Robbins e Judge (2022) destacam que atitudes relacionadas ao comprometimento e ao engajamento influenciam diretamente a produtividade, a qualidade e o desempenho das equipes.

Além disso, Katz (1964) demonstrou que as organizações dependem de comportamentos discricionários — aqueles que vão além das obrigações formais do cargo — para alcançar níveis superiores de desempenho.

Muitos problemas operacionais decorrem de questões comportamentais:

  • pouca iniciativa;
  • resistência à mudança;
  • baixa colaboração;
  • falta de comprometimento;
  • ausência de visão sistêmica.

Profissionais com elevada competência técnica podem produzir resultados muito diferentes dependendo de suas atitudes.

A produtividade é consequência direta da capacidade de transformar competências em comportamentos de alto desempenho.


A evolução da dimensão atitudinal

Tradicionalmente, a atitude no CHA era entendida apenas como “vontade de fazer”.

Hoje, o mercado exige uma visão muito mais ampla.

As organizações procuram profissionais capazes de:

A) Adaptar-se rapidamente

Mudanças tecnológicas, novos processos e transformações organizacionais exigem flexibilidade e capacidade de aprendizagem contínua.

B) Demonstrar protagonismo

Empresas valorizam pessoas que assumem responsabilidades, antecipam problemas e propõem soluções.

C) Trabalhar de forma colaborativa

Os resultados organizacionais dependem cada vez mais da integração entre áreas e equipes multidisciplinares.

D) Possuir inteligência emocional

Controlar emoções, lidar com pressões e construir relacionamentos saudáveis tornou-se uma competência indispensável.

E) Gerar valor para o negócio

Os profissionais precisam compreender como suas atividades impactam custos, qualidade, produtividade e resultados financeiros.

Le Boterf (2003) e Zarifian (2001) ampliaram o conceito de competência ao afirmar que ser competente não significa apenas possuir conhecimentos e habilidades, mas saber mobilizá-los de forma responsável diante de situações reais de trabalho, exercendo autonomia, iniciativa e capacidade de adaptação.


O papel das atitudes no Lean Manufacturing

O Lean Manufacturing é frequentemente associado a ferramentas como:

  • 5S;
  • Kaizen;
  • Kanban;
  • Trabalho Padronizado;
  • Gestão Visual.

No entanto, a verdadeira essência do Lean está nas pessoas e nos comportamentos.

Segundo Liker (2004), o sucesso do Sistema Toyota de Produção está menos relacionado às ferramentas e mais associado aos comportamentos sustentados por uma cultura de disciplina, resolução de problemas e melhoria contínua.

Womack e Jones (2003) também afirmam que a transformação Lean exige mudanças profundas na forma de pensar e agir das pessoas.

Ferramentas podem ser implantadas em poucas semanas. Já a construção de uma cultura de melhoria contínua exige anos de trabalho e depende fortemente das atitudes das pessoas.


O futuro das competências: além do conhecimento técnico

As rápidas transformações tecnológicas e organizacionais tornaram a aprendizagem contínua uma competência estratégica.

Senge (1990) argumenta que a única vantagem competitiva sustentável de uma organização é sua capacidade de aprender mais rapidamente que seus concorrentes.

Complementando essa visão, Lombardo e Eichinger (2000) introduziram o conceito de Learning Agility, definido como a capacidade e a disposição para aprender com a experiência e aplicar esse aprendizado em novas situações.

As organizações já perceberam que:

Conhecimento é importante.

Habilidade é indispensável.

Mas é a atitude que determina se essas capacidades serão efetivamente convertidas em resultados.


Inteligência emocional e competências comportamentais

Goleman (1995) demonstrou que competências emocionais, como autoconsciência, autocontrole, empatia e habilidades sociais, exercem influência significativa sobre a capacidade de liderar, colaborar, resolver conflitos e adaptar-se às mudanças.

Essas competências são cada vez mais relevantes em ambientes industriais caracterizados por:

  • mudanças constantes;
  • pressão por resultados;
  • trabalho em equipe;
  • inovação contínua.

Competências para o futuro do trabalho

O relatório The Future of Jobs Report (World Economic Forum, 2023) aponta que as competências mais valorizadas pelas organizações incluem:

  • pensamento analítico;
  • aprendizagem ativa;
  • adaptabilidade;
  • liderança;
  • resiliência;
  • inteligência emocional;
  • colaboração.

Essas evidências reforçam a ideia de que a dimensão atitudinal assumiu um papel central no desenvolvimento das competências profissionais.


Conclusão

Segurança, produtividade, qualidade e melhoria contínua possuem um elemento em comum: todas dependem do comportamento humano.

Por trás de cada resultado extraordinário existe uma combinação de conhecimento, habilidade e, principalmente, atitude. A atitude no CHA é o fator invisível que determina:

  • se os procedimentos serão seguidos;
  • se os riscos serão evitados;
  • se as melhorias serão implementadas;
  • se o conhecimento será compartilhado;
  • se a organização conseguirá sustentar uma cultura de excelência.

Por isso, o desafio das empresas modernas não é apenas treinar pessoas para executar tarefas.

É desenvolver profissionais capazes de aprender, adaptar-se, colaborar e transformar suas competências em resultados.

Como afirmam Spencer e Spencer (1993), as competências mais profundas — valores, motivações e atitudes — são justamente aquelas que mais diferenciam os profissionais de alto desempenho. Em síntese:

Conhecimento é Saber.

Habilidade é Saber Fazer.

Atitude é Querer Fazer, Adaptar-se e Gerar Valor.

Competência = (Conhecimento + Habilidade) × Atitude.

Porque, se a atitude for zero, dificilmente o conhecimento e a habilidade produzirão segurança, produtividade e desempenho sustentável.


Referências

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